Transtorno de Ansiedade II Parece que foi esquecido o fator “TEMPO”, pois as pessoas não podem mais tê-lo, mas sim correr contra ele. Dessa forma, não há mais tempo para o que é indispensável, como qualidade de vida.

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Transtorno de Ansiedade (Parte II)
 
            No artigo da semana passada, pudemos descrever sucintamente sobre os sete tipos de transtornos de ansiedade e relatar os sintomas e sinais físicos que podemos encontrar referentes à ansiedade. Como é um tema de intensa relevância, foi percebida a necessidade de explorar mais esse tema, que é infelizmente tão comum, no mundo contemporâneo.
             Atualmente, estamos vivendo a era da tecnologia. Esta traz inúmeras informações,algumas de qualidade e outras não. Consequentemente, ao termos contato com uma gama de conhecimentos, ficamos, cada vez mais, presos a um sistema que nunca para e envolvidos por um modo de funcionamento assaz ansiogênico. Além disso, a configuração familiar trouxe muitas mudanças, como, por exemplo, a inserção da mulher e mãe no mercado de trabalho de uma forma mais forte e comum, em que, muitas vezes, apresentam tripla jornada, seja laboral ou associada ao lar.
      Já é perceptível a diferença, desde a infância, onde a criança já passa a adquirir responsabilidades que vão muito além do brincar. Muitos já precisam não só ser responsáveis por si, mas também por algum familiar (irmãos, avós, etc.). Assim sendo, observa-se um processo de cobrança, seja externa ou interna. Isso culmina com o desenvolvimento de transtornos internalizantes, como a ansiedade e a depressão.
         As exigências escolares vão sendo, cada vez mais, precocemente cobradas. A escola já não se resume à divisão entre o momento de estudar e o momento de brincar, de se socializar e de começar a conviver em sociedade. Há uma inversão de valores, em que a criança e o adolescente já são “obrigados” a pularem etapas da vida, o que inevitavelmente cursa com ANSIEDADE.
         
E, com o ciclo vital, chega-se à idade adulta. Há a necessidade de ser o melhor, para obter espaço no campo profissional. Parece que foi esquecido o fator “TEMPO”, pois as pessoas não podem mais tê-lo, mas sim correr contra ele. Dessa forma, não há mais tempo para o que é indispensável, como qualidade de vida. A busca por mais conhecimentos, através de graduações ou pós-graduações, as exigências do trabalho e a busca incessante pelo reconhecimento só poderiam culminar com o desenvolvimento de transtornos de ansiedade. E é isso que observamos.
         A tensão predomina. Tensão emocional, refletida no corpo. Tensão em sair de casa e enfrentar um trânsito infernal, o medo de ser assaltado, as preocupações exacerbadas com questões financeiras, etc. Tudo é muito rápido. Não há mais tempo de esperar. Esperar uma carta chegar pelos correios, para isso hoje já existe e-mail. Estar na companhia dos amigos e familiares pessoalmente, já que redes sociais e aplicativos de celulares proporcionam o contato virtual, servindo como substitutos. O trabalho não fica limitado à jornada de trabalho, pois você será encontrado, através do celular ou outros meios eletrônicos. E, assim, a ansiedade vai ocupando todo o seu espaço e a sua vida. E, pior, você se deixa envolver por esse ritmo e acaba adoecendo.
       Ter-se-ia que ter a ansiedade como um medo não patológico, que, inclusive, seria saudável. É o medo quem faz você de dedicar para ter uma boa nota na prova, para se proteger de algumas situações de risco ou para ter um desempenho mais satisfatório. Porém, o grande problema é quando esse medo se torna patológico, em que há perda do controle, e a pessoa passa a apresentar a ansiedade patológica, que interfere no sono, no apetite, na sexualidade e em outras esferas da vida de qualquer indivíduo. E aí vem o grande vilão: o ESTRESSE:
substantivo masculino – Estado gerado pela percepção de estímulos que provocam excitação emocional e, ao perturbarem a homeostasia, levam o organismo a disparar um processo de adaptação caracterizado pelo aumento da secreção de adrenalina, com várias consequências sistêmicas
 
      Vem sendo, cada vez mais frequente, o estresse no trabalho, culminando com a Síndrome de Burnout, conhecida como “um estado de esgotamento físico e mental cuja causa está intimamente ligada à vida profissional” (Herbert J. Freudenberger). Encontram-se tanto sintomas depressivos quanto ansiosos e podem ser bastante limitantes e mesmo incapacitantes.
Os transtornos de ansiedade precisam ser reconhecidos e valorizados. As consequências podem ser muito graves, se não tratados. O tratamento pode envolver medicamentos, psicoterapia, realização de atividades físicas e de dieta balanceada.
          Em suma, é imprescindível o tratamento, para obtenção de uma melhor qualidade de vida. Não há como mudar o mundo, mas há como mudar a forma de você enxergá-lo e enfrentá-lo sem ansiedade.
Dr. Estácio Amaro

Presidente da Associação Paraibana de Psiquiatria

Membro Titular da Associação Brasileira de Psiquiatria

Mestre em Psiquiatria pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul

Psiquiatra de crianças, adolescentes e adultos.

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