Arremetidas não são incidente Ao contrário do que muita gente imagina, manobra é comum na aviação

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A arremetida de um A321 da Latam no último fim de semana em Salvador virou notícia na internet. Informam que a manobra serviu para evitar o choque com outra aeronave de menor porte na pista. Uma passageira do voo LA3883 proveniente de Belo Horizonte relatou muita tensão a bordo, classificando a ocorrência como um absurdo. A entrevistada afirmou ainda que “nem as aeromoças sabiam o que tinha ocorrido”.
 
Ao ouvir relatos assim é preciso levar em conta a tensão natural que envolve pessoas comuns durante operações aéreas. Uma turbulência, uma freada mais brusca na pista, manobras mais arrojadas causam desconfiança e até medo na maior parte dos passageiros. Nada mais normal, embora a maioria dessas situações não signifique qualquer ameaça à segurança de voo.
 
Por outro lado, é preciso reverter falsas conclusões que notícias desta natureza trazem para essas mesmas pessoas sem acesso aos conhecimentos técnicos. Passou da hora de companhias, órgaos reguladores e especialistas em aviação disponibilizarem conhecimentos básicos aos passageiros. Como diz o Lito Sousa, “é preciso descomplicar a aviação”. Justamente para combater impactos desnecessários causados por notícias carregadas de termos e declarações apavorantes. Isso faz um mal terrível a quem já tem pavor de voar. Curiosamente, muitas vezes as próprias companhias aéreas não fornecem informações detalhadas aos jornalistas durante o trabalho de apuração.
 
O movimento deveria ser justamente o de tranquilizar aqueles que entram em uma aeronave com um pé atrás. Pessoas comuns devem ter acesso à rotina e aos detalhes reais das operações aeronáuticas.
 
Arremetidas representam risco ZERO à segurança de voo. Repetindo: zero, por mais que a manobra possa assustar um passageiro desavisado. Esse procedimento, conhecido em inglês como “go-around”, nem mesmo chega a ser considerado raro. Só na Austrália, por exemplo, são registradas ao menos 800 arremetidas por ano. Uma média de duas a cada dia.
 
Quem passar uma tarde no terminal de Dusseldorf, na Alemanha, no inverno europeu, em outro exemplo, se entediaria com as arremetidas. São diversos os motivos que levam pilotos a arremeter. Os mais comuns são ventos fortes, que fazem a aeronave perder “o ponto” do pouso, e tráfego ou objetos na pista, como aconteceu na capital baiana.
 
Arremetidas conscientes por conta de tráfego na pista são uma coisa. Diferente de manobras bruscas e repentinas para evitar colisão com outra aeronave por causa de “barbeiragem” de piloto ou controlador de tráfego. No caso de Salvador, ficou bem claro que o ocorrido foi banal. Nesse caso, é possível desconstruir as informações, adjetivações e impressões passadas pela passageira, embora, digo mais uma vez – por conta do susto e desconhecimento – essas declarações devem ter sido dadas de boa fé, no calor do susto.
 
A manobra do Latam em Salvador não foi nenhum absurdo. Foi tomada para EVITAR, atenção, EVITAR um choque com outro avião na pista. É muito provável que se o pouso seguisse, nenhum acidente seria registrado, uma vez que ações de controladores são extremamente conservadoras e buscam sempre a prevenção.Mas por que o Latam seguiu para a pista? Porque o piloto monitorava tudo e arriscou o pouso. E quando chegou ao limite do ponto de segurança, optou pela decisão mais segura.
 
Recentemente causou estranheza a aproximação e arremetida de um Gol na pista de Fernando de Noronha por conta do tráfego de um Azul na pista. O susto se deu pela falta de uma torre de controle em Noronha e pela aproximação exagerada do Gol, uma vez que o Azul demoraria a livrar a pista. A manobra somada às imagens de um vídeo feito por funcionários do aeroporto – que também se mostraram assustados – deram margem à muitas especulações.
 
Na reportagem desse fim de semana, a passageira declarou:- “As aeromoças (comissárias) nem sabiam o que estava acontecendo”. E não tinha como saber mesmo. Elas ficam na cabine de passageiros, impossibilitadas de saber em tempo real o que se passa na cabine de comando, não tem como ouvir os diálogos entre pilotos e controladores. E mesmo se soubessem, nada poderiam fazer.
 
A passageira continuou:- “Depois da arremetida todo mundo achou que o avião ia cair”.Se o avião arremeteu, ele subiu.
 
Se subiu, não corria risco de cair.- “O avião levou ainda 20 minutos para pousar”, reclamou. Sim, ele arremateu, precisou ser recolocado no procedimento padrão de pouso, que obedece a um critério de posicionamento. Experimente você no seu carro abandonar uma fila de carros no posto de combustível para idar uma volta no quarteirão e voltar minutos depois. Será que vai demorar um pouco para o frentista abastecer seu carro?
 
Se você estiver a bordo de um jato que precise arremeter durante o pouso, fique despreocupado. O máximo que pode acontecer é um pequeno atraso de poucos minutos em seu compromisso. Se o seu avião arremeteu, foi justamente para preservar sua segurança. Perigoso seria pousar em condições arriscadas.
 
Quando você, leitor, se deparar com manchetes do tipo “Avião arremete por conta de outra aeronave na pista e passageira relata tensão”, o significado provavelmente será o mesmo de um título do tipo “Taxista manobra para desviar de bueiro aberto e passageiro relata tensão”.

 

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