O homem que quer derrubar a Nike: Carlos Wizard Martins Sócio dos empresários Marcus Buaiz e Ronaldo Fenômeno, o ex-professor de inglês quer dominar o mercado de artigos esportivos e escolas de futebol na América Latina – e também nos Estados Unidos, na China...

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CARLOS WIZARD MARTINS: APÓS ERGUER A MAIOR DEDE DE ENSINO DE IDIOMAS DO MUNDO, MARTINS COMEÇA A EXECUTAR SUA ESTRATÉGIA PARA FAZER DA TOPPER UMA MARCA GLOBAL (FOTO: PEDRO DIMITROW )
CARLOS WIZARD MARTINS: APÓS ERGUER A MAIOR DEDE DE ENSINO DE IDIOMAS DO MUNDO, MARTINS COMEÇA A EXECUTAR SUA ESTRATÉGIA PARA FAZER DA TOPPER UMA MARCA GLOBAL (FOTO: PEDRO DIMITROW )

 

BSB – O Universal Hard Rock Hotel de Orlando, com 650 quartos, é um dos principais resorts da rede conhecida por seus emblemáticos restaurantes espalhados por 59 países. Fica dentro do complexo do Universal Studios e, como todo estabelecimento do grupo, tem o rock como temática. A música toca em alto e bom som e há memorabilia por toda parte. Entre as colunas romanas de decoração, piscinas e restaurantes, estão expostas lá relíquias como o terno que John Lennon vestiu no filme A Hard Day’s Night, de 1964, um pijama de Elvis Presley dos anos 50 e uma guitarra Ted Newman-Jones usada por Keith Richards durante a turnê do álbum Some Girls.

Numa tarde de janeiro de 2015 o ex-professor de inglês Carlos Wizard Martins entrou no Hard Rock de Orlando. Estava acompanhado do genro Rafael Bertani. Não foi a lazer, embora estivesse de férias com a família nos Estados Unidos, pelo simples motivo de que não é o lugar que ele frequentaria. Wizard pertence à Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias. Tornou-se mórmon aos 12 anos, por influência dos pais, em Curitiba, sua cidade. Foi quando começou a aprender inglês.

Aos 26 anos, foi aceito na Brigham Young University, universidade ligada à igreja, em Salt Lake City, no estado do Utah. De volta ao Brasil, formado em análise de sistemas, começou a dar aulas de inglês na sala de sua casa para complementar a renda. Montou então sua primeira escola de inglês, depois outra, depois outra. Nesse tempo incorporou o nome da franquia ao seu. Em 2013, vendeu o Grupo Multi, sua holding de ensino, por R$ 1,7 bilhão.

Como mórmon, Martins não bebe, não fuma e é avesso a badalações. Naquela tarde de 2015, ele foi ao Hard Rock Cafe encontrar o ex-jogador Ronaldo Fenômeno, um festeiro assumido. “O Ronaldo tinha um compromisso com um patrocinador e acabamos nos encontrando lá”, conta Carlos Martins. “Ele me disse: ‘Eu sou um fenômeno do futebol e você é um fenômeno da franquia. Por que não nos juntamos?’. Ele queria fazer uma escola de futebol para crianças e jovens, no Brasil e nos Estados Unidos. Apertamos as mãos e fechamos um acordo.”

 

CARLOS MARTINS E RONALDO DURANTE LANÇAMENTO DA RONALDO ACADEMY NA CHINA (FOTO: DIVULGAÇÃO)
CARLOS MARTINS E RONALDO DURANTE LANÇAMENTO DA RONALDO ACADEMY NA CHINA (FOTO: DIVULGAÇÃO)

Daquele encontro surgiu a Ronaldo Academy, que une o nome famoso e a metodologia de ensino criada pelo ex-jogador com a expertise do ex-professor de inglês em replicar o modelo em franquias. Com menos de um ano, a Ronaldo Academy tem três unidades próprias no Brasil – na cidade de São Paulo, Campinas e São José do Rio Preto, no interior do estado. Outras oito escolas abrirão as portas ainda em 2016. A meta é bem mais ambiciosa. O grupo pretende terminar o ano com 80 unidades vendidas para franqueados e 45 em funcionamento. Em três anos, a ideia é contar com 200 escolas.

O projeto nasceu internacional. E logo a China entrou nos planos, com o anúncio de abertura de 30 unidades no país – seis delas já estão funcionando. A presença por lá conta com um trunfo – o apreço pelo futebol por parte do presidente Ji Xiping. “O grande sonho dele é levar a Copa do Mundo para a China em 20 anos. Eu e o Ronaldo queremos ajudar o país a se promover e a se preparar para receber esse evento esportivo”, diz Carlos Martins.

Para os sócios brasileiros, um bom trânsito com o governo pode significar um mercado de milhares de escolas espalhadas pela China, com demanda por métodos de treinamento e material esportivo. Pelo programa estatal de popularização do esporte, 5 mil escolas já contam com uma carga horária de três horas semanais de aulas de futebol. Até 2017, serão 20 mil e, em 2025, a meta é expandir o ensino a pelo menos 50 mil escolas.

Nos Estados Unidos, as primeiras unidades devem ser abertas em julho, em Orlando, em parceria com escolas públicas, porém em espaços privados. “As soccer moms, como são chamadas, oferecem um terreno fértil para a venda de produtos e serviços”, diz Maria Cristina da Motta Franco, presidente da Associação Brasileira de Franchising, lembrando que Martins possui raízes naquele país. Os pais e irmãos do empresário moram nos Estados Unidos. Ele viaja para lá ao menos duas vezes por ano e tem uma casa em Orlando.

RONALDO E CARLOS MARTINS NA INAUGURAÇÃO DA UNIDADE DA RONALDO ACADEMY DE ORLANDO (FOTO: DIVULGAÇÃO)
RONALDO E CARLOS MARTINS NA INAUGURAÇÃO DA UNIDADE DA RONALDO ACADEMY DE ORLANDO (FOTO: DIVULGAÇÃO)

A dupla Ronaldo e Martins conta com um terceiro atacante: Marcus Buaiz, marido da cantora Wanessa Camargo e sócio de Ronaldo na agência de marketing esportivo 9ine. Martins e Buaiz já se conheciam de negócios anteriores. Em 2014, o ex-professor de inglês comprou a rede Mundo Verde, para a qual Buaiz fornece café, farinha de trigo e mistura para bolos das indústrias da família. Foi Buaiz quem apresentou Ronaldo a Martins, e os três se juntaram para formar a Ronaldo Academy.

No fim do ano passado, Martins e Buaiz se uniram em outra empreitada ao comprar a Topper e a Rainha da Alpargatas por R$ 48 milhões. A empresa que reúne essas duas marcas passou a se chamar BR Sports. Por muitos anos a Topper foi líder no mercado de futebol. A camisa da seleção brasileira de 1982, uma das melhores de todos os tempos, levava o logo da marca, assim como o uniforme de dois times brasileiros que se sagraram campeões mundiais, o Corinthians de 2000 e o São Paulo de 2005. Segundo Martins, no entanto, havia deixado de ser prioridade para a antiga controladora.

“A Alpargatas obtinha mais de 90% de seu faturamento com as Havaianas. As duas marcas esportivas juntas respondiam por cerca de 5% da receita. É natural que tenham sido deixadas de lado”, afirma Martins. “Queremos formar um pool de grifes esportivas; novas aquisições, de marcas brasileiras ou internacionais, não estão descartadas”, complementa o sócio Buaiz.

Nessa empreitada Ronaldo ficou de fora, e por um motivo mais que plausível. Pelo contrato com a Nike desde que vestia a camisa 9 da seleção brasileira, ele fica impedido de associar sua imagem a outras marcas esportivas. Mas o acordo com a marca americana tem brechas. “Há outras linhas de produtos que não fazem parte do contrato com a Nike, como canetas, chaveiros, pulseiras e relógios despertadores que, com o selo Ronaldo Academy, o craque poderá endossar”, conta Carlos Martins.

CARLOS WIZARD MARTINS: APÓS ERGUER A MAIOR DEDE DE ENSINO DE IDIOMAS DO MUNDO, MARTINS COMEÇA A EXECUTAR SUA ESTRATÉGIA PARA FAZER DA TOPPER UMA MARCA GLOBAL (FOTO: PEDRO DIMITROW )
CARLOS WIZARD MARTINS: APÓS ERGUER A MAIOR DEDE DE ENSINO DE IDIOMAS DO MUNDO, MARTINS COMEÇA A EXECUTAR SUA ESTRATÉGIA PARA FAZER DA TOPPER UMA MARCA GLOBAL (FOTO: PEDRO DIMITROW )

Apesar da falta de investimento nos últimos anos, Rainha e Topper ainda são ativos importantes. Na América Latina, de acordo com a consultoria Euromonitor, as duas juntas fecharam 2015 na vice-liderança de vendas do setor, perdendo só para a Nike, e à frente da Vulcabrás-Azaleia (dona da Olympikus e da franquia Reebok) e das alemãs Adidas e Puma.

A Topper tem papel fundamental nos planos do trio de ataque. Um garoto-propaganda da estirpe de Ronaldo, com uma legião de fãs na China, certamente ajudará a impulsionar as escolas de futebol. A marca, por sua vez, pega uma carona na fama do astro ao ser a fornecedora oficial de uniformes, chuteiras e bolas da Ronaldo Academy – até porque o plano é que cada unidade tenha um ponto de venda da Topper. “Ronaldo pode ser na China o que Pelé foi para o futebol norte-americano e Zico para o Japão”, acredita Buaiz.

Em seu primeiro teste, a popularidade do Fenômeno se mostrou em alta. Apesar de ainda não ter nenhum produto fabricado, os itens com a marca Ronaldo Academy já têm um acordo de comercialização com a Ali Sports, braço do conglomerado Alibaba, do bilionário chinês Jack Ma. Durante as negociações, Ronaldo deu a Jack Ma uma camisa da seleção autografada. O empresário chinês fez questão de enviar a Carlos Martins uma foto vestindo o uniforme.

Buaiz fez outra aproximação importante para a consolidação do grupo: foi ele quem apresentou Ronaldo ao genro de Martins, o empresário Rafael Bertani. Junto com outros dois sócios, Bertani já havia comprado a franquia do Fort Lauderdale Strikers, time da liga paralela de futebol dos Estados Unidos. Depois, Buaiz e Ronaldo entraram na sociedade do time americano. Lá, ao contrário do Brasil, as equipes podem ser privadas. Rafael Bertani acabou nomeado CEO da Ronaldo Academy.
“Acabei me aproximando do Charles, um dos filhos do Carlos Martins”, conta Buaiz. “Nossas histórias são parecidas, nossos pais são grandes empreendedores. Admiro a relação profissional que o Carlos tem com seus filhos e o respeito mútuo entre eles”, conta. Charles comentou com Buaiz sobre outro negócio que sua família estava avaliando. “Eles estavam em fase final de negociação com a Alpargatas e emendamos um projeto no outro”, diz.

O PROFESSOR CARLOS MARTINS NO INÍCIO DA REDE WIZARD (FOTO: ACERVO PESSOAL)
O PROFESSOR CARLOS MARTINS NO INÍCIO DA REDE WIZARD (FOTO: ACERVO PESSOAL)

Como é a relação entre sócios tão diferentes? Martins prepara ele mesmo seu suco detox de manhã, caminha uma hora por dia e é fã de ópera. “Existe respeito mútuo”, afirma Martins. “O Ronaldo tem a vida particular dele e o Buaiz tem suas casas de festa, mas nós não entramos na intimidade deles, nem eles na minha. Acho que temos muito mais em comum do que pontos de divergência.”

As perspectivas são animadoras. “Em breve Ronaldo será nomeado um dos embaixadores da China Children and Teenagers’  Foundation, principal organização não governamental local, o que deve nos abrir portas junto ao Partido Chinês”, afirma Rafael Bertani. Já para a Topper os esforços para aumentar a fatia de mercado na América Latina começaram com a contratação do antigo gestor da Penalty, Paulo Ricardo de Oliveira.

Além do reforço no número de pontos de venda, a marca está negociando com clubes da série A e B do Campeonato Brasileiro. O primeiro a fechar foi o Botafogo. Pelo acordo de três anos, o alvinegro receberá R$ 40 milhões, sem contar a participação nas vendas de camisas, a partir de maio. Outros clubes brasileiros fizeram acordos com marcas concorrentes de valor final superior, mas sem essa participação.

A meta do grupo, a médio e longo prazo, não é nada modesta: bater as maiores marcas esportivas do mundo. “Concorrer com a Nike e Adidas é um processo natural, já que elas estão há décadas investindo em produtos e na construção de suas marcas”, diz Martins. “Mais importante do que a velocidade em que isso vai ocorrer é saber que estamos no rumo certo. Passei mais de 20 anos no setor de educação e posso garantir que a forma de planejar, estruturar, investir na formação de pessoal e em marketing e o foco no cliente são iguais.”

Fonte: GQ -  POR FLAVIA GALEMBECK
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