Legal ou ilegal?

0

Aos 45 dias de vida, Anny Fischer, filha da paisagista Katiele de Bortolli Fischer e do gestor de fundos sociais Norberto Fischer, teve sua primeira convulsão. Era o primeiro indício de um quadro que seria diagnosticado, quatro anos depois, como uma síndrome rara, crônica e degenerativa chamada CDKL5, que afeta o desenvolvimento neurológico e psicomotor. Começava ali uma longa jornada que Katiele enfrentaria, quebrando preconceitos para trazer ao país, legalmente, o único remédio capaz de melhorar a qualidade de vida de sua filha: um componente da maconha.

Após trazer o CBD (canabidiol, componente com fortes propriedades anticonvulsivas) ilegalmente para o Brasil, iniciou uma batalha contra o conceito de certo e errado, cujo objetivo é garantir mais qualidade de vida a pessoas como Anny Fischer. “O grande objetivo desta luta é que as pessoas tenham liberdade de escolher com que tipo de medicamento desejam se tratar”, diz Katiele.

Olhar por outro ângulo

Hoje, Katiele conseguiu não apenas uma liminar que permite a importação de CBD para sua filha, mas também fez com que a substância passasse da lista de proibidas para a lista de controladas da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Também conquistou para os cidadãos brasileiros a isenção do pagamento do imposto de importação de 60% não apenas para o canabidiol, mas para qualquer medicamento.

O caso fez com que o Conselho Federal de Medicina do Brasil fosse pioneiro a se manifestar sobre o tema, ainda que num parecer restrito a crianças e à epilepsia. Mesmo atuando dentro do âmbito da maconha medicinal, a paisagista contribuiu para uma das discussões mais atuais (e polêmicas) da nossa sociedade, a legalização da maconha. “Como uma planta vista como tão maldita poderia ser boa?”, indaga Katiele. “Precisamos nos livrar desse preconceito.”

“Precisamos nos livrar do precon­ceito. A maconha pode ser boa”

Isso durou até que, um dia, no lugar do pacote da importação, chegou uma carta da Anvisa pedindo explicações. Foi o estopim para o processo judicial que permitiria a importação e desencadearia seguidas vitórias de Katiele. “Tudo tem um lado bom”, fala Katiele. “É preciso olhar por um outro ângulo, sempre.”

A vontade, hoje, é de um dia poder produzir nacionalmente a substância e mostrar para a sociedade que os problemas são, na verdade, uma grande oportunidade. “Hoje, com 7 anos, a Anny ainda é extremamente comprometida, mas se comparar com o que era antes, ela teve uma melhora exorbitante. Controle cervical, dedinho na boca, perninha que muda de posição, apetite melhor, fica acordada e tem até umas gordurinhas”, sorri Katiele. “Ela tem a oportunidade de ver o mundo e de sentir o cheiro das pessoas. Esse tipo de estímulo é um direito dela também”, conclui, com a leveza de quem sabe que está no caminho certo.

trip248-transformadores-0012

Comentários