Hora da verdade

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(Original Caption) Sir Winston Churchill making the famed "V" for "Victory" sign. He is shown in the uniform of the Royal Auxiliary Airforce. Ca. 1940-1945.

Por: André Gustavo Stumpf, jornalista

Em maio de 1940, o recém nomeado primeiro ministro da Inglaterra, Winston Churchill, foi obrigado a enfrentar desafios praticamente insuperáveis. O Exército britânico estava cercado por tropas alemães na cidade francesa de Dunquerque. Cerca de 300 mil homens. No plano interno, seus opositores iniciaram conversas com Hitler, através da diplomacia italiana, para assinar a paz em separado com os nazistas. Naquele momento, praticamente sem exército, com a defesa aérea ainda deficiente, a solução mais fácil seria assinar os documentos e acabar com a perspectiva de confronto bélico.

Havia, também, na Inglaterra da época, a corrente favorável ao nazismo liderada por Oswald Mosley. Até o Rei Eduardo VIII, que renunciou para casar com Wallis Simpson, norte-americana, tinha relações pessoais com o líder alemão. Se os ingleses tivessem concordado com a paz, a Alemanha de Hitler teria conseguido dominar toda a Europa. Os Estados Unidos não usariam o território britânico para estacionar tropas e operar como base para a futura invasão do velho continente. A geografia política seria diferente da atual.

Churchill simplesmente disse não. Não e não. Fez o discurso famoso para afirmar que lutaremos nas ruas, nas praias, nos mares, no ar, ‘nunca nos renderemos’. Os soldados cercados em Dunquerque foram resgatados pela determinação dos ingleses que se aventuraram em qualquer coisa parecida com barcos para salvar o Exército. Londres sofreu pesado bombardeio, mas a Força Aérea descobriu recursos pessoais e materiais para a defesa. Protegeu a cidade. Tempos depois Churchill viu suas tropas invadirem a França ocupada e chegar a Alemanha. Ele, com perseverança e decisão política consistente, derrotou o nazismo e venceu a guerra.

Ter coragem para decidir é fundamental. Reconhecer o risco e buscar a solução, ouvir especialistas e fazer a sua própria política é bom caminho para alcançar resultados pretendidos. Churchill, ao final da guerra, perdeu a eleição. Foi reeleito anos depois e retomou o cargo de primeiro ministro inglês. Mas entrou para a história. É reconhecido em seu país como o maior político de todos os tempos. Uma existência notável. Ele mudou o destino da Inglaterra, da Europa e por extensão de todo o Ocidente. Cada um tem sua guerra e seu desafio. É neste momento que os políticos se diferenciam. Uns pensam na próxima eleição. Outros preferem olhar para a frente, respeitar a hierarquia dos riscos e aceitar os desígnios do destino. Estes modificam os rumos da história.

O Brasil do presidente Jair Bolsonaro não distingue o urgente do acessório. Confunde o longo com o curto prazo. Mistura opções políticas com decisões de governo. E embrulha no mesmo pacote medidas de âmbito geral com iniciativas destinadas a agradar grupos determinados, como foi a recente decisão de manter abertas as igrejas. A turma do dízimo falou mais alto. A eleição presidencial será realizada em 2022. Há, portanto, mais de dois anos a ultrapassar antes de os brasileiros serem chamados às urnas outra vez. Antecipar decisões é um erro brutal, agravado pelo fato de a pandemia estar matando pessoas em todos os recantos do planeta.

O isolamento progressivo a que ele se impôs o colocou à margem de seu próprio governo. Jânio Quadros ficava sozinho no Palácio da Alvorada assistindo filmes de faroeste norte-americanos. Gostava dos destilados. Foi num momento destes, abalado pela solidão e temperado pelo bom escocês, que tomou a decisão da renúncia. Não consultou ninguém, nem mesmo seu secretário de imprensa, Carlos Castello Branco. Solidão é mágoa, elimina horizontes e desmancha carreiras.

Na área da política, solidão abre espaços preciosos. O presidente Bolsonaro fala, apenas, para sua turma. Não é mais o presidente de todos os brasileiros. Surge uma avenida de oportunidades para o protagonismo do governador de São Paulo, João Doria, e do presidente da Câmara dos deputados, Rodrigo Maia. Os governadores de todo o país estão em estado de rebelião. Cada um segue seu próprio caminho na defesa da população contra o vírus. O chefe do governo não assume a liturgia do cargo. Empurra os problemas para governadores. A história política do Brasil está cheia de eventos estranhos: suicídio de presidente, renúncia, golpe, impeachment. Já existe jurisprudência de crise política. A questão de agora é escolher o caminho para levar o capitão de volta para casa ou fazer com que ele assuma, de fato, a Presidência da República e todas as suas circunstâncias.

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