Durante 257 dias, mãe do pequeno Enzo teve que se aplicar uma injeção anticoagulante para combater a trombofilia. by Rodolfo Bartolini

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A luta de uma mulher para conseguir realizar o sonho de sua vida e ter um filho se transformou em uma foto de impacto, que tem feito sucesso nas redes sociais ao mostrar um bebê recém-nascido rodeado por seringas, com a palavra “amor” no círculo incomum. A história por trás da imagem não é menos forte e alerta para um problema que interrompe muitas gestações.

Além do amor crescente, cada dia da gravidez de Renata Simão foi marcado por uma injeção, necessária para garantir que o bebê conseguisse chegar ao mundo. Ao todo, durante oito meses e meio, foram 257 aplicações, que começaram logo após a confirmação da gestação e só terminaram na antevéspera do parto.

Renata, de 31 anos, teve que se submeter ao tratamento porque foi diagnosticada com trombofilia, condição que altera sua coagulação e a deixa mais suscetível a desenvolver um coágulo (ou trombo), principalmente durante a gravidez.

Antes de conceber o pequeno Enzo, que têm menos de um mês de vida, ela já havia passado pela interrupção de duas gestações até ter o problema descoberto. Quando seu médico descobriu o que havia de errado, prometeu que a ajudaria a ter um filho, mas avisou que deveria fazer um tratamento com heparina, um tipo de anticoagulante.

Subcutânea, a injeção pode ser aplicada nas dobras da barriga, coxas ou braços, mas não é considerada dolorosa. Quando teve que começar o tratamento, porém, a expectativa de finalmente conseguir realizar o sonho de ser mãe travou Renata.

Renata emocionada ao segurar Enzo Foto: Patrí¬cia Machado Fotografia
Renata emocionada ao segurar Enzo Foto: Patrícia Machado Fotografia

“A primeira injeção foi terrível. Uma mistura de medo, esperança. Fiquei uma hora para conseguir me aplicar”, lembra. “Liguei para minha mãe e falei que não ia conseguir. Ela mandou fechar os olhos e pensar no filho que estava na minha barriga”.

“O mais sofrido pra quem tem trombofilia é não poder comemorar o [resultado] positivo. Você vive uma mistura de felicidade e incerteza, pois mesmo tomando as injeções pode perder a criança”, explica.

Embora tenha ficado apreensiva e só acreditar que tudo correu bem ao segurar o filho nos braços, Renata diz que, somando tudo, a gravidez foi tranquila.

“Meu médico, o doutor Felipe Brandão de Carvalho, foi um anjo. Apesar dos medos, a gravidez foi muito tranquila – eu até caí duas vezes”, afirma.

Medo da repercussão da foto

A foto de Enzo, que nasceu perfeitamente saudável, foi feita por Patrícia Machado, amiga de longa data da mãe do menino. Especializada em retratar bebês, acompanhou toda a trajetória da amiga, mas confessa que achou estranho o pedido para fotografar o pequeno rodeado pelas seringas.

“Ela guardou todas as seringas e queria uma recordação com o bebê. A única maneira que imaginei elas na composição foi ao redor dele”, explica a fotógrafa.

Patrícia Machado Fotografia
Patrícia Machado Fotografia

A própria Renata teve um momento de dúvida antes da fotografia ser tirada. “Quando cheguei com a bolsa ao ensaio percebi a quantidade de seringas. Abria a bolsa para olhar e me dava agonia”, confessa.

O estranhamento, porém, se dissipou logo após o clique. ”Quando vi o resultado na própria câmera já me emocionei. Confesso que ao postar na rede social achei que a grande maioria pudesse não entender a imagem e até mesmo recriminar, mas pra minha surpresa muitas outras mães que passaram pelo problema ou ainda estão passando se sensibilizaram, e a repercussão só aumentou”, comemora Patrícia.

Prevenção e tratamento

Segundo a ginecologista e obstetra Milca Cezar Chade, as trombofilias devem ser investigadas em todas as mulheres que apresentam um quadro anterior de trombose, histórico familiar e problemas em outras gestações.

Se o problema não é hereditário, pode ter sido causado por medicamento, trauma, operações e imobilização prolongada, entre outros.

“Não é um exame que se pede durante o pré-natal, mas sim quando a mulher está se programando para gestar”, explica. “O tratamento dependerá de cada caso, mas consiste na utilização de medicações anticoagulantes que “afinam” o sangue, prevenindo a formação de trombos. Na gestação, a medicação mais aconselhável é a injetável.”

A especialista ainda afirma que quando a gestação é programada e não apresenta nenhuma complicação decorrente da trombofilia, além dos cuidados da própria gestação, as pacientes devem ter uma frequência maior de consultas e do controle fetal.

“Elas são orientadas a utilizarem meias elásticas durante todo pré-natal, parto e pós- parto”, completa a especialista.

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