Como Vietinã vence guerra contra coronavírus e seus efeitos? São 95 milhões de pessoas em alta densidade populacional, baixa renda, sistema de saúde precário e 1,4 mil km de fronteira com a China

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04:14:30 – Com informações da BBC, Reuters

é possível que o Vietinã, esteja vencendo a guerra contra o vírus chinês, com tantos índices de desenvolvimento menores do que de países que estão perdendo a guerra do Covid-19?

Apesar de vizinho da China, o Vietnã, até agora, teve menos de 300 casos de covid-19 confirmados e nenhuma morte registrada.

Mas como um país com 95 milhões de habitantes, alta densidade populacional, menos de um terço da renda per capita do Brasil, um sistema de saúde precário e 1,4 mil quilômetros de fronteira com a China, origem do surto, está conseguindo vencer o vírus?

A resposta está em uma combinação de fatores, entre os quais testagem agressiva, quarentena rigorosa e rastreamento de contatos de doentes.

Além disso, o país recorreu a uma ampla campanha de conscientização com a ajuda da tecnologia e de artistas famosos. Também priorizou uma comunicação aberta e transparente com a população, surpreendendo até mesmo observadores internacionais.

E, claro, agiu rápido.

No último dia 23 de abril, sem apresentar transmissão comunitária do vírus por duas semanas consecutivas, o Vietnã começou a flexibilizar o confinamento que havia imposto a seus habitantes.

Início do surto
Os dois primeiros casos confirmados de covid-19 no Vietnã foram registrados no fim de janeiro. Em 1º de fevereiro, a Vietnam Airlines interrompeu todos os voos para China, Taiwan e Hong Kong. A fronteira com a China foi fechada dias depois.

Nas semanas seguintes, o país impôs uma série de restrições, implementando medidas antes e às vezes até contra as recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS), como o cancelamento de voos internacionais e o uso obrigatório de máscaras faciais.

Também impediu aglomerações com mais de 30 pessoas, assim como festivais, cerimônias religiosas e eventos esportivos.

Finalmente, em 1º de abril, o país iniciou o confinamento de sua população, antes de outros países, muitos dos quais desenvolvidos.

Testes em massa e rastreamento de contatos
Devido à limitada infraestrutura de saúde pública, o governo vietnamita concentrou seus esforços na realização de testes em massa e rastreamento agressivo de contatos de doentes – uma tática já empregada para combater a epidemia da SARS (Síndrome Aguda Respiratória Grave), que atingira o país há 17 anos.

Mas dessa vez tudo foi feito em escala muito maior. Até o dia 30 de abril, o Vietnã havia realizado 261 mil testes e isolado dezenas de milhares de pessoas.

Isso significa que o país testou quase 900 pessoas para cada novo confirmado da doença, a maior taxa de testes por caso confirmado do mundo. Chegou, inclusive, a fabricar seus próprios kits de testes e até exportou parte deles para a Europa e os Estados Unidos. Eles custam menos de US$ 25 e produzem resultados em 90 minutos.

O teste e o rastreamento de contatos são baseados em um princípio de quatro níveis anunciado pelo Ministério da Saúde vietnamita: pacientes de covid-19 confirmados e seus contatos diretos (nível 1: isolamento e tratamento em hospitais); contatos próximos com o nível 1 (nível 2: isolamento em estruturas montadas pelo governo); contatos próximos com o nível 2 (nível 3: autoisolamento em casa); e lockdown do bairro/vilarejo/ cidade onde o paciente mora (nível 4).

Localização e isolamento
Mas de nada adiantaria testar maciçamente a população se os novos casos não pudessem ser localizados – e isolados.

Para isso, o país lançou mão de métodos que seriam considerados discutíveis em países com leis de direitos de privacidade mais rígidas.

Funciona assim: um histórico detalhado das movimentações de cada novo paciente de covid-19 é divulgado nas redes sociais e nos jornais locais, de modo a buscar pessoas que tenham estado em contato próximo com ele. Para aumentar a vigilância, também foi lançado um aplicativo para que as pessoas alertem as autoridades locais sobre suspeitas de infecções em sua área. Todas as pessoas que entram no país são obrigadas a apresentar um atestado de saúde. Declarações falsas são passíveis de multa e prisão.

Especialistas questionam, no entanto, se tais medidas poderiam ser implementadas em regimes democráticos. O Vietnã é um Estado de partido único com décadas de experiência em mobilizar sua população por meio de guerras e surtos de doença.

Como lembra o jornalista Trang Bui em artigo no jornal britânico The Guardian, nos primeiros dias da epidemia, o governo definiu o surto “como uma guerra”.

“Médicos e enfermeiros eram chamados de “soldados”, e o recém-criado Comitê Diretor Nacional de Prevenção e Controle de Covid-19 foi apelidado de “Quartel General” – uma referência a um corpo militar existente até 1975″, diz ele.

“Não apenas a linguagem da guerra foi revivida, mas os militares tiveram papel fundamental para combater o surto. As Forças Armadas foram encarregadas de coordenar a alimentação, o transporte e as acomodações necessárias para colocar em quarentena milhares de pessoas que retornavam ao Vietnã de países com o surto da doença”, acrescenta.

Como em tempos de guerra, quase todos os setores, incluindo aviação, saúde e produção de alimentos, foram mobilizados e encarregados de conter a pandemia. Enquanto isso, os cidadãos eram encorajados por meio de redes sociais, mensagens de texto e transmissões de TV para doar para os fundos de prevenção de doenças do país.

Surpreendentemente, no entanto, as mensagens não foram comunicadas no estilo militar tradicional e rígido.

Em vez disso, o governo decidiu ser criativo: passou a atualizar os cidadãos por meio de mensagens de texto frequentes, uniu-se a dois cantores pop famosos para produzir uma música educativa sobre o vírus, contratou artistas para criar pôsteres e usou figuras jovens e influentes para levantar os ânimos daqueles que tiveram que se isolar.

Assim, o governo conseguiu não só proteger sua imagem, mas reconstruiu a confiança com a população.

Nos últimos anos, o país vinha sendo pressionando pela falta de transparência com que lidou com desastres ambientais, como o envenenamento em massa de peixes em 2016, disputas de terras e, mais recentemente, um polêmico projeto de lei de zonas econômicas especiais.

“Resta saber, no entanto, se o Vietnã vai manter esse nível de transparência após a crise do coronavírus”, ressalva Bui.

Desafio econômico
Também há outro desafio em jogo: a economia. Isso talvez tenha sido o motivo para que o país decidisse suspender o confinamento no último dia 23 de abril.

Muitos serviços não essenciais, como bares e salões de karaokê, ainda estão fechados. Alguns possivelmente nunca se recuperarão. Foram suspensas as restrições para lojas, hotéis e restaurantes, mas em um país onde o turismo representa 6% do PIB, o futuro parece cada vez mais incerto – não se sabe quando as fronteiras serão reabertas.

Um relatório divulgado pela Organização Internacional do Trabalho (OIT) no mês passado indicou que pelo menos 10 milhões de vietnamitas podem perder o emprego ou enfrentar uma redução de sua renda no segundo trimestre de 2020. O Fundo Monetário Internacional (FMI) prevê uma taxa de crescimento de 2,7% para o Vietnã em 2020, uma queda de cerca de 7% no ano passado.

No início de abril, o governo anunciou um pacote de estímulo de US$ 2,5 bilhões para os mais pobres. Pessoas em situação de maior vulnerabilidade vão receber US$ 76 por semana.

“ATMs (caixas eletrônicos) de arroz” e “lojas zero dong (moeda vietnamita)” foram criados nas principais cidades para ajudar os mais afetados pela pandemia, mas isso não foi suficiente para garantir o básico, mesmo com o auxílio financeiro distribuído pelo governo.

Em entrevista ao jornal britânico The Guardian, a economista vietnamita Nguyen Van Trang diz que o caminho adiante parece ameaçador.

“Decisões incrivelmente difíceis se apresentam sobre como e quando reabrir o país”, diz ela.

Van Trang ressalva que, apesar dos riscos externos, os setores de manufatura, serviços e varejo iniciam uma retomada.

“A resiliência interna é enorme. Uma grande parte da população sobreviveu a dificuldades durante a guerra, portanto eles podem se recuperar rapidamente”, diz ela.

Mas para alguns dos mais pobres no Vietnã, a situação não parece nada promissora.

Com a atenção desviada para a pandemia, as ONGs foram duramente atingidas. A Fundação Blue Dragon Children’s , uma organização que trabalha com crianças de rua em Hanói e resgata vítimas do tráfico de seres humanos da China, viu as doações despencarem.

Skye Maconachie, diretor executivo conjunto da organização, diz que a crise já levou a um aumento na falta de moradia e na fome.

“Muitas crianças e famílias com quem trabalhamos já estavam em situação de pobreza ou crise, e agora estão chegando a um ponto de ruptura”, diz Maconachie ao The Guardian.

“Os traficantes atacam pessoas vulneráveis, então esperamos ver um aumento no tráfico de seres humanos e na exploração do trabalho nos próximos meses”, acrescentou.

Ainda assim, quando comparados a seus vizinhos, o Vietnã parece ter derrotado o coronavírus. Em Cingapura, foram mais de 20 mil casos e 20 mortos. Na Indonésia, 12,7 mil casos e quase 1 mil mortos.

O ministério da Saúde e o Exército brasileiros deveriam estudar casos de sucesso, como o vietnamita para evoluir no combate ao vírus.

O Vietnã é um país que ainda tenta se reerguer econômica, social e psicologicamente da guerra que acabou há 40 anos.

Pelo menos 1,1 milhão de vietnamitas morreram no conflito (algumas estimativas falam em 3 milhões de mortos). Outros países também sofreram baixas na guerra do Vietnã, como os mais de 58 mil americanos e mais de 4 mil soldados sul-coreanos mortos.

Essa não é a primeira vez que o país enfrenta um inimigo microscópico. O “Agente Laranja”, arma química utilizada pelos EUA para matar plantações, florestas e desentocar soldados vietinamitas, ainda faz vítimas até hoje com seus efeitos colaterais, segundo pesquisadores.

Vietnã pediu, sem sucesso, compensação às vítimas do “agente laranja” por malformação de crianças e contaminação, com efeitos que duram até hoje.

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