Bolsonaro – “Quem não se comunica, se trumbica” Como as falhas de comunicação do governo federal podem fortalecer a ala centro-esquerda

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Abelardo Barbosa, saudoso Chacrinha, [1]dizia em seus programas de auditório, tanto no radio quanto na tevê, a frase “Quem não se comunica, se trumbica” para sintetizar o poder da comunicação em massa. O que valeu para o “Velho Guerreiro” serve muito bem para o presidente brasileiro, Jair Bolsonaro.

Mais do que isso, os primeiros cinco meses do governo Bolsonaro foram marcados por falhas de comunicação que dificultaram imensamente a relação entre os Poderes e a sociedade civil. Não parece existir a “racionalização do trabalho[2] (DUARTE, 2009, pág. 127) para planejar minuciosamente a comunicação os passos, coordenação das atividades dos subordinados e definição de quem fala em nome do governo Bolsonaro.

Ponto importante no aumento da temperatura social foi a fala do ministro da Educação, Abraham Weintraub, “Universidades que, em vez de procurar melhorar o desempenho acadêmico, estiverem fazendo balbúrdia, terão verbas reduzidas” em entrevista ao jornal Estado de São Paulo. Weintraub disse que as instituições como UnB (Universidade de Brasília) teriam um corte de 30% dos recursos.

Como resultado, os deputados do “Centrão” e da oposição, com 307 votos, convocaram o ministro Weintraub para explicar a infeliz frase e o porquê os cortes nas universidades teve como critério a “balbúrdia”.

Enquanto o ministro da Educação falava na Câmara dos Deputados, as ruas do país eram tomadas por multidão despertada pela “trumbicada” de Weintraub. Nos bastidores do Congresso Nacional, os deputados e senadores começavam a medir o “termômetro social” das manifestações para entender se o presidente Jair Bolsonaro mantinha ou não o apoio do povo.

No final, a falta de planejamento estratégico de comunicação tornou a entrevista de Weintraub em nuvem tóxica contaminadora da relação entre o governo Bolsonaro, os Poderes e a sociedade civil. O adormecido “Centrão” mostrou suas garras e a oposição ganhou uma pauta relevante para mobilizar seus seguidores e outros brasileiros interessados na agenda da educação pública.

Antes de finalizar, é importante apontar que a palavra “balbúrdia” vem do latim balbus que significa gago: sujeito articula mal as palavras e as pronuncia com dificuldades; exprimir-se com indecisão[3]. Nesse caso, a gagueira comunicacional parece estar no governo federal que não consegue passar sua mensagem para a sociedade. Esse ruído na mensagem pode ser entendido como índice de enfraquecimento político do governo Bolsonaro e dificultar a aprovação da agenda de projetos como o da reforma da Previdência.

Aristóteles levantou em seu livro Ética a Nicômaco a questão: “quando a fortuna nos sorri, para que precisamos de amigos?”. É uma boa pergunta a ser feita para o presidente Bolsonaro, afinal “A sorte não existe – Aquilo a que chamas de sorte e o cuidado com os pormenores”[4].

[1] BARBOSA,Rito FLORINDA, Lucia. Quem não se Comunica se Trumbica. 1ª ed. Rio de Janeiro/ RJ: Editora Globo 1996

[2] DUARTE, Jorge. Assessoria de Imprensa e Relacionamento com a Mídia – teoria e prática. 2ª Ed. São Paulo/ SP: Editora Atlas S.A – 2009

[3] Dicionário Online de Português https://www.dicio.com.br/pesquisa.php?q=gagueja

[4] CHURCHILL, Winston. Memórias da Segunda Guerra Mundial – vol. 1. Tradução Vera Ribeiro. Rio de janeiro/ RJ: Editora Nova Fronteira -2005

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Alan Marques
Mestre em Comunicação pela UnB/ FAC com MBA em Marketing pela FGV. Formado em Jornalismo pelo UniCeub e em Administração pela UDF. Trabalhou por 20 anos na Folha de São Paulo com passagem pelos jornais O Globo (1992-94) e Jornal de Brasília (1994-97). É professor universitário nas graduações de Jornalismo e de Publicidade no UniCeub e coordenador do curso de Comunicação da Anhanguera. Foi professor de Introdução de Fotografia na UnB e membro do corpo editorial da Revista Campus Repórter/ UnB 14, 15 e 16. É autor de cinco livros sobre jornalismo de imagem e participou do livro OlhaeVê www.gruponau.com.br