Mindfulness ou plena atenção: um porto seguro na tempestade

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Texto:Liu Pereira

O ambiente corporativo exige profissionais multitarefa e proativos. O sistema educacional impõe quantidade cada vez maiores de conteúdo às crianças e jovens. Pais e mães, pressionados e assustados, submetem seus filhos a excesso de atividades. A sociedade seleciona indivíduos informados e conectados. E para darmos conta dessa sobrecarga que a vida moderna nos impõe, tendemos a viver acelerados e de maneira automatizada.

Como resultado, temos acompanhado a aumento alarmante de casos de depressão, ansiedade e outros transtornos psíquicos. Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de 300 milhões de pessoas sofrem com transtorno depressivo em alguma parte do mundo, enquanto 264 milhões de pessoas são acometidas de sintomas ansiosos.

Para nos ajudar a escapar dessa roda-viva de estresse, vem sendo amplamente utilizada, nos cinco continentes, uma técnica meditativa chamada mindfulness. Também conhecido como plena atenção, mindfulness é a habilidade de cada um de nós estarmos atentos de uma maneira especial. É estarmos presentes, momento a momento, sem julgar e conscientes na nossa tendência a reagir de forma automática.

A plena atenção surgiu há mais de 2.500 anos na Índia e é um tipo de meditação utilizada pelos adeptos do Budismo. No entanto, sua aplicação no Ocidente, hoje em dia, extrapola qualquer viés filosófico-religioso. Isso graças ao médico Jon Kabat-Zinn que criou, em 1979, um programa de redução do estresse com duração de oito semanas e baseado em práticas de plena atenção, chamado MBSR – Mindfulness Based Stress Reduction. De lá pra cá, com os avanços sobretudo da neurociência, inúmeras pesquisas, em renomadas universidades no mundo inteiro, têm estudado os benefícios do mindfulness para nossa qualidade de vida.

Dentre os ganhos que podemos obter a partir do treino de plena atenção estão a redução do estresse, da ansiedade e de sintomas depressivos, o aumento da concentração e da capacidade de memória, o relaxamento da mente e do corpo, o desenvolvimento da empatia e da compaixão e o aprimoramento da capacidade de identificarmos e gerenciarmos nossas emoções – sejam elas agradáveis ou desagradáveis.

Para a prática de mindfulness utilizamos, especialmente, um elemento simples e que nos acompanha por toda a vida: nossa respiração. A base da prática consiste em observar a respiração enquanto ela acontece, momento a momento. Cada inspiração e expiração funcionam como âncoras, nos trazendo de volta para o presente. Ao percebermos que fomos arrastados por um pensamento ou emoção, direcionamos a atenção para a respiração e voltamos. Assim, o navio antes à deriva na tempestade, encontra novamente porto seguro.

Já foi comum a crença de que essa ferramenta era acessível somente a monges, que se dedicam a horas e horas de meditação. Mas não. Ela está ao alcance de todos nós. No entanto, fortalecer um estado de consciência plenamente atento, que nos leva a uma vida com mais qualidade, requer treino. Há quem pratique por uma hora, mas é possível colher os benefícios do mindfulness com uma prática diária de 5, 10 minutos. O importante é começar – e persistir!

Liu Pereira, psicóloga clínica de crianças e adultos, idealizadora do Projeto Respirar – Mindfulness para Crianças e instrutora mindfulness infantil, com formação pela AMT (International Academy for Mindful Teaching).

 

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